Publicado em 06 fev 2026 • por Rosana Siqueira •
A Arauco Brasil iniciou a implantação da primeira ferrovia shortline do País dentro do modelo de autorização concebido pela ANTT (Agência Nacional de Transportes Terrestres) e que vai ligar a futura fábrica de celulose Sucuriú à Malha Norte. A cerimônia de lançamento da pedra fundamental da ferrovia aconteceu nessa sexta-feira (6), em Inocência, com as presenças dos ministros Renan Filho (Transportes), Simone Tebet (Planejamento), senadores Tereza Cristina e Nelsinho Trad, do governador Eduardo Riedel, secretário de Meio Ambiente, Desenvolvimento, Ciência, Tecnologia e Inovação, Jaime Verruck; entre outras autoridades.
Pela Arauco, estavam presentes o presidente do Grupo no Brasil, Carlos Altimiras; o diretor de Logística e Suprimento, Paulo Alberto Pagano; o diretor de Sustentabilidade e Relações Institucionais, Theófilo Militão e o diretor Financeiro, Hector Pino.
O ramal ferroviário com aproximadamente 45 quilômetros de extensão representará investimento aproximado de R$ 1,2 bilhão. Vai conectar a planta industrial da Arauco à Ferrovia Norte Brasil (Malha Norte), em Inocência, e permitir que toda a celulose produzida na futura fábrica seja escoada por transporte ferroviário até o porto de Santos, de onde seguirá por navios ao mercado consumidor internacional.
Competitividade e sustentabilidade
“Isso garante competitividade ao produto”, ponderou o secretário Jaime Verruck. “Ferrovia significa economicidade, menor emissão de CO2, redução de custo do frete, fazendo com que o produto de Mato Grosso do Sul seja mais competitivo no mundo. Essa é a primeira ferrovia shortline no Brasil e esperamos que outras fábricas de celulose também façam investimentos em logística”, completou o secretário.
“Por muito tempo o desenvolvimento passou por nós, agora ele começa por aqui”, comemorou o prefeito de Inocência Antônio Ângelo dos Santos. “A princesinha logo se tornará rainha da Costa Leste”, previu, referindo-se a sua cidade.
“Desde 2011 vivemos esse sonho, quando a Arauco era a esperança de mais uma fábrica de celulose. Agora a indústria já saiu do chão, começou forte”, relembrou a senadora Tereza Cristina.
Simone Tebet contou que seu pai, Ramez Tebet, em 1975, em discurso de posse na Prefeitura de Três Lagoas, já pleiteava a vinda de uma fábrica de celulose ao município. “Isso tudo para reverenciar os grandes homens públicos que lutaram por essa terra”, ponderou. “Todos foram muito importantes.”
Malha Oeste
“Nunca um empreendedor fez uma ferrovia na história moderna do Brasil por esse modelo de autorização”, disse o ministro dos Transportes, Renan Filho. Após comemorar os investimentos na ferrovia da Arauco, ele anunciou a relicitação da Malha Oeste ainda para esse ano. A ferrovia Malha Oeste está desativada há anos e atravessa o Estado de Leste a Oeste, desde Três Lagoas a Corumbá.
“Vamos investir outros R$ 850 milhões em Mato Grosso do Sul, para concluir acesso à ponte de Porto Murtinho e reconstruir a rodovia”, acrescentou Renan Filho.
Riedel também puxou da memória para relembrar sua parcela de contribuição para vinda da Arauco. “O que mais me chamou a atenção foi quando um senhor de idade avançada, com uma cabeça excepcional e que lidera o grupo, me disse em visita que fiz ao Chile, que tinham tudo para vir a Mato Grosso do Sul. Mas queria antes olhar em meus olhos, soube que eu tinha sido eleito governador e queria ter certeza de que seria um bom investimento. Eu disse que a Arauco podia vir de olhos fechados. O que melhor temos a oferecer é confiança e credibilidade”, afirmou.
Visão estratégica
“Sonhos bem planejados saem do papel e movem desenvolvimento, sustentabilidade e compromisso com o futuro. Em minha visão, o que celebramos hoje não é apenas o começo de uma ferrovia, é uma visão estratégica de longo prazo, a materialização de um projeto que já nasce conectado ao mundo”, disse o presidente da Arauco Brasil.
A ferrovia não é um complemento, mas parte principal do Projeto Sucuriú, disse Altimiras. “Essa shortline é um marco dentro do novo arcabouço ferroviário brasileiro. Cria condições reais para novos investimentos privados em infraestrutura. Conecta a floresta aos portos e o Brasil aos principais mercados internacionais”.
A autorização para construção de ferrovias shortline pela ANTT está fundamentada na Lei nº 14.273 de 2021 e regulamentada pela Resolução nº 5.987 de 2022 que permite à iniciativa privada implantar e explorar ramais ferroviários por um período de até 99 anos. A ANTT também emitiu a Declaração de Utilidade Pública (DUP) que viabiliza desapropriações e servidões administrativas essenciais. Todo o processo de licenciamento foi conduzido pelo Imasul (Instituto de Meio Ambiente de Mato Grosso do Sul), que emitiu em novembro do ano passado a Licença Previa autorizando a empresa a avançar no projeto.
O traçado aprovado pelo Imasul inclui uma ponte de 269 metros e dois viadutos (ferroviário e rodoviário), todos situados em Inocência. A licença impõe rigorosas condicionantes ambientais, como a instalação de dispositivos de mitigação de atropelamento de fauna, monitoramento periódico de acidentes com animais silvestres, manejo e translocação de espécies e recomposição das áreas afetadas.
No mesmo modelo também foram autorizados pela ANTT ramais ferroviários entre Três Lagoas e Aparecida do Taboado, com extensão de 88,9 quilômetros e investimento estimado na época em R$ 890 milhões, a ser implantado e operado pela Eldorado Brasil; e outro com extensão de 136 quilômetros também conectando Três Lagoas a Aparecida do Taboado, só que operado pela Suzano e orçado em R$ 1,27 bilhão. Esses dois projetos ainda não foram iniciados.
A Arauco firmou contrato de R$ 770 milhões no início do ano com a montadora Randoncorp para o fornecimento de vagões ferroviários. Os lotes somam 750 vagões e 20 locomotivas, serão fabricados na unidade da Randon em Araraquara (SP) e deverão ser entregues à Arauco ao longo de 19 meses, entre maio de 2026 e novembro de 2027.
A Arauco está construindo o “Projeto Sucuriú” em Inocência que será a maior fábrica de celulose de linha única do mundo, com investimento de US$ 4,6 bilhões (cerca de R$ 25 bilhões). A previsão de início das atividades é para final de 2027; a fábrica terá capacidade de produção de 3,5 milhões de toneladas ao ano, vai empregar cerca de 14 mil trabalhadores na fase de obras e após o início das operações, deve gerar 6 mil empregos fixos diretos e indiretos.
Texto: João Prestes
Fotos: Mairinco de Pauda
